quinta-feira, 31 de março de 2011

IMPRESSÕES DA ÍNDIA II

Os homens andando de mãos dadas ou abraçados. Usando saias xadrez. Madras. Nada a ver com o xadrez escocês. Os casais lado a lado sem se tocar. Os enormes cinemas superlotados. A pedra de trezentos (?) quilos que se levanta pelas mãos dos fiéis. O encanto do encantador de serpentes. Dizem que a ponta da flauta é umedecida com urina de rato para atiçar a naja de cabeça achatada. Muito sem graça essa versão. O bicho serpenteando ao som da música combina mais com o ambiente, com o misticismo e a loucura desse país. Os monumentos de pedra. O Mahabarata esculpido em pedra cor de rosa e o mar cruel subindo para destruir tudo. Os banheiros de buraco no chão sem papel. Com a mão direita você come. Com a direita você se limpa. Todo indiano traz uma minichaleira na cintura. Descobrimos por quê. Os baby wipes limpaxam mãos e pés. Museus. Fortalezas. O túmulo de Gandhi.O adobe rosa. A culinária picante, saborosa, gostosa, variada, perfumada, prazerosa muda qualquer referência gastronômica anterior. Um desarranjo no começo até você se acostumar. De novo, é só fechar os olhos e começar a salivar. Hotéis de muitas estrelas e Ashrans acanhados onde todos têm que se virar para conseguir uma refeição que disfarce a fome de tantas horas em jejum. A ioga. O iogue. O Centro de Medicina Ayurvédica. Os gurus. Os maharishis. Auroville. A cidade do futuro onde se encontra terra de todas as partes do mundo. Utopia. O templo Baha’i , em Delhi, aberto a todos, condensa ensinamentos e rituais das 5 principais religiões do mundo. Utopia. A Mãe. A emoção por Sir Aurobindo. Os estrangeiros em Rishikesh. As crianças vendendo colares e disputando sua atenção. Contam a vida inteira e não desgrudam enquanto você estiver na área. A tática é ficar com um vendedor só o tempo todo. Ele se encarregará de afastar os outros. O divertido TucTuc, o táxi nacional, todo vazado. Chove em você, mas quem se importa? Riquixás do século XIX transitam à vontade naquele ir e vir que só os indianos entendem. O padre Joe Pereira em Mumbay com seus drogados e aidéticos praticando ioga. O inevitável cheiro de mofo no rastro das Monções.O ashram do Osho. Pessoas lindas, altas e loiras embrulhadas em panos cor de vinho.Exame de HIV obrigatório para o ingresso.O passeio no jardim proibido. Uma transgressãozinha não faz mal a ninguém. A árvore que abrigava mil fiéis. As stupas budistas em Sarnath, onde Buda recitou seu primeiro sermão. Monges vestindo açafrão, cabeças raspadas, caminhando. Em volta da stupa. Fizemos o mesmo. Plantamos bandeirinhas coloridas com pedidos pessoais e silenciosamente ouvíamos os sinos, os mantras e o vento. As sedas. Os toques. As lojas na calçada. De novo as cores. Os perfumes. O barbeiro cortando cabelo no meio da calçada. O movimento lateral da cabeça que confunde: é sim ou não? A música alta em qualquer canto, as buzinas intermitentes não para avisar ou aborrecer o outro. Só pra fazer barulho, mesmo. Aqueles deuses enfeitados, quase barrocos, nas fachadas dos templos. O elefante que pede moedas. Os macacos que somem com sua bolsa. Os aeroportos caóticos. Os mil carregadores disputando sua mala. De outro lado, silêncio absoluto. Reverente. Apenas sinos e incenso. O executivo escandalizado no avião: onde estão seus maridos? Os ocidentais casam-se por paixão. E por isso que os casamentos não duram, etc. e tal. Espanto. Não é que ele tem razão? Talvez a sinastria dos astros possa ajudar. Procura-se um astrólogo. Perdeu os óculos? Ali na esquina tem um oculista. Por mais ou menos vinte reais ele faz a consulta e, em uma hora, lhe dá óculos novos. Incrível simplicidade. Dor de cabeça? Nem pensar em comprar uma aspirina. Antes, a consulta com o farmacêutico. Depois, a prescrição. Gente extremamente supersticiosa e civilizada. Retrógrada e muito mais avançada do que pensamos. A tecnologia de ponta dos cientistas que comem com as mãos. Mais proximidade com o alimento. Mais facilidade para engoli-lo, senti-lo, saboreá-lo. Bichos de pequeno porte pendurados no que se assemelha a um açougue. Nem todo indiano é vegetariano. Depende da religião, do grupo. Verduras e legumes do dia. Quem precisa de geladeira? O cortador de legumes. Um sonho ocidental de consumo. Alguém vem à sua casa para cortar os legumes e deixar tudo pronto para uso. Um real por dia é preço razoável. Normalmente, os xudras é que fazem isso. A divisão por castas está banida da constituição desde.1950. Mas a segregação ainda existe entre os próprios integrantes de cada uma. Brâmanes (religiosos, estudiosos, sábios); Xátrias (militares e governantes); Vaixás (agricultores e comerciantes), Xudras (serviçais, artesãos, camponeses) e os antes excluídos, dálits ou párias que, segundo a tradição, não nasceram de nenhum membro de Brahma. Aqui também temos castas disfarçadas. Grupos que não se misturam na sua ignorância e miséria ou no seu pedestal de celebridade ou política. Nunca toque num brâmane nem num dálit. Num, por respeito. Noutro, por aversão. Medo de ser amaldiçoado. Nas ruas estreitas de Varanasi o comércio de pedras semipreciosas e tecidos alucinantes. Aquela multidão frenética adornada de faixas, cintos, xales, turbantes. Coisa mais simples um sári. Cinco metros de tecido em cima de uma calcinha e uma blusa colada e pronto. Sem zíper, botão, bainha, cós e sei lá mais o quê. Mostrar a barriguinha pode. Os ombros nunca. Um mergulho em água e sabão e minutos depois o traje está seco. Quarenta e tantos graus em maio. A pimenta, o gengibre para levantar os ânimos. Ônibus sem ar condicionado. Nenhuma cervejinha à venda. Só nos hotéis. A brincadeira com o nome do importante imperador Akbar. Pintava aquela sede e vinha o trocadilho inevitável: ah que bar! Regatas proibidas eram escondidas sob lenços e afins para não criar caso. As imensas lavanderias a céu aberto. O esgoto correndo nas ruas. O fausto dos hotéis. Ou tudo ou nada. Sem meio termo. As indecências esculpidas em Kajurao. O Kama Sutra. O urso dançarino infeliz na estrada fazendo (des) graça. Exploração. Uma lástima. As dançarinas se contorcendo no Gitananda Ashram. O lindo músico cego. Depois, Katmandu com aquele olho assustador de Buda no alto da montanha. A cannabis plantada na estrada e nos jardins. Os hippies tardios desfilando chapados. A infeliz Kumari, menina deusa de olhos tristes confinada em seu palácio. Seu destino é ser adorada pelo povo sem nunca poder amar. Solidão. Como tantas princesas por aí que não conseguem sair de seu castelo. O vôo na cordilheira. O Himalaia bem debaixo do nariz. Calado e imponente se exibindo para um grupo que quase não respirava. A retomada da feminilidade. A mulher como centro da família. Fato distante irrecuperável.
O retorno. A adaptação difícil. A intuição aguçada vendo o que antes estava disfarçado. Vontade de ir de novo e não voltar mais.

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