Índia de muitas cores, perfumes, odores, fedores. Exagero. De gente. De barulho. De silêncio. De brilho e de sujeira. De luxo e de miséria. A descoberta do feminino. O vermelho esvoaçante do xale. O azul-dourado do sári. Os olhos do indiano escuro que te encara incisivo. As pulseiras douradas nos tornozelos encardidos. As flores nas barracas de rua virando enfeite para maravilhosos cabelos negros. O sadu seminu esmolando com um sorriso desdentado. A reverência ao santo. Ao macaco. À vaca. O ônibus para. Enquanto a vaca não acabar de pastar no meio da avenida, ninguém anda. Atravessar a rua é viver um videogame. Não se sabe para que lado ir nem de que lado os outros vêm. O vendedor de bolinhos sentado em lótus na calçada prepara a massa e a vai fixando em rodelas como feridas brancas nas pernas imundas. Depois, um óleo bem quente transforma aquela pasta nojenta em crocante e perfumado quitute. Que todos comem avidamente usando um pedaço de jornal como guardanapo. E enchendo de pimenta. Um elefante enfeitado vira a esquina. O cornaca todo enrolado num traje suntuoso mantém uma postura ereta e decidida. Mais alguns quarteirões e um cortejo festivo avança em sua direção. É um casamento. A casa do noivo está aberta para quem quiser. Como abertas ficam as casas daqueles que estendem seus lençóis na calçada para dormir nas noites de calor em Pondicherry. Ou você anda no meio da rua ou vai pedindo licença como se estivesse brincando de amarelinha. De repente uma explosão. Hinduístas e muçulmanos não conseguem se entender. O cheiro do mercado entorpece. Aromas delicados, fortes, doces, intraduzíveis vão entrando nas suas narinas causando uma vertigem de prazer. Marcando suas células para sempre. É só fechar os olhos, viajar um pouquinho, para que a sensação volte. O cheiro dos mares. De um lado, o oceano Índico, de outro, o Mar da Arábia. E as cores? Elas têm vida. Daquelas tinas emanam espectros que se infiltram nos seus olhos. Tonalidades diversas e alucinantes de vermelho, azul, amarelo e todas as combinações possíveis. Desvairamento incontrolável. Os caracteres gráficos sempre dançando e se metamorfoseando. A caligrafia de Goa não tem nada a ver com a de Delhi que não tem nada a ver com a de Mombay que não tem nada a ver com a de Chennai, apesar de haver uma língua oficial, o híndi. A todo momento se ouve algo parecido com inglês que qualquer garotinho fala: one dollar, cheap madam, take it, please. Palácios abandonados. Faltou água. Os aposentos ricamente decorados do harém. Dá vontade de ser a preferida do rei. Deuses enfeitados nos templos. O ritual do guardião : lavar as imagens com ghi, uma espécie de manteiga, e depois vesti-las durante o dia para que recebam seus fiéis no melhor dos trajes. Ao fechar o templo, suas roupas são retiradas. Na frente das casas, mesmo nas mais miseráveis, há uma mandala desenhada no chão ou na porta. Reverência, respeito, proteção. Intenções mais assinaladas nas inaugurações, ou mesmo na recepção dos hóspedes nos hotéis, por Ganesha, o deus com cabeça de elefante, protetor dos lares, portador da alegria. Quando menino, teve sua cabeça cortada por causa do ciúme do pai, o poderoso Shiva. Ao ver o desespero da mãe, Parvati, Shiva ordenou aos deuses que restituíssem a cabeça da criança dando a ela o aspecto da primeira criatura que passasse. Adivinhe o que foi. As testas marcadas até dos executivos com duas linhas paralelas na horizontal (devoto de Shiva) ou na vertical (devoto de Vishnu). O brilho do Taj Mahal sob o luar. O choro do grupo emocionado ao ouvir a grande história de amor do imperador Shah Jaha .e de sua amada esposa que morreu ao dar à luz seu 14º. filho! Ele queria fazer um túmulo para si, no mesmo estilo, só que em mármore negro. Mas o filho mais novo, justamente aquele que não conheceu a mãe, bloqueou os gastos incalculáveis da futura obra e confinou o pai num palácio lindo e triste, do outro lado do rio. E o imperador morreu contemplando pela janela o mármore branco do Taj Mahal onde jazia sua Mumtaz Mahal “a eleita do palácio”. As pedras preciosas, antes incrustadas nas paredes, roubadas pelos ingleses e outros. As imitações dos ambulantes. Milhares de histórias, de deuses, de religiões. Urubus sobrevoando altas torres indicam que algum parsi acabou de falecer. O corpo humano tem que servir até o fim. Por isso, fica exposto lá no alto para alimentar as aves. Parece que tal hábito está, aos poucos, sendo banido. Jainistas que quase não abrem a boca para não correr o risco de engolir algum inseto por engano. Totalmente ahimsa, a não-violência. Outra prática milenar que está em extinção é a cremação pública. Só os ricos têm poder aquisitivo para comprar a madeira especial, certificada pelo governo, que alimenta as piras. Hoje existem fornos crematórios. Mais práticos. Menos reverentes. Pegar um barco no Ganges ao amanhecer é outra experiência que se fixa nos seus neurônios, como sanskaras, e nunca mais sai. O silêncio, as cores ainda tênues do sol (ah, as cores!), o cheiro de madeira queimada, incenso, especiarias...E mais sorrisos. Principalmente diante de uma máquina fotográfica. O indiano tem paixão por se deixar fotografar, por fazer parte de seu álbum de recordações. Bom é levar uma Polaroid para retribuir o retrato na hora. Arunachala, a montanha encantada de Sri Ramana Maharshi. O valor de um sabonete ou xampu de hotel para aquelas meninas enroladas em lindos panos sujos. Canetas e lápis são disputadíssimos. Saiona comprida e sandália com meias. Breguice confortável. As meias protegem do piso ensebado. Vamos deixando roupas pelo caminho. Uma camiseta aqui, uma saia acolá. As malas saciadas com as compras não reclamam. As jóias. O ouro presente nos braços, orelhas, narizes até dos mais pobres.
Há sempre uma saída para honrar a beleza, ainda que escondida atrás de nódoas que marcam a pele como mapas.
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